Ajoelhou-se, e depositou a espada aos pés do filho de
Catelyn.
- Aceitarei a paz nesses termos - disse Lorde Karstark. -
Podem ficar com o seu castelo vermelho e com a sua
cadeira de ferro também - tirou a espada da bainha. - O
Rei do Norte! - disse, ajoelhando-se ao lado de Grande-
Jon.
Maege Mormont pôs-se em pé.
- O Rei do Inverno! - declarou, e pousou sua maça de
espigões ao lado das espadas. E os senhores do rio
também estavam se erguendo, Blackwood, Bracken e
Mallister, casas que nunca tinham sido governadas por
Winterfell, mas Catelyn viu-os erguer-se e puxar as
lâminas, vergando os joelhos e gritando as velhas
palavras que não eram ouvidas no reino havia mais de
trezentos anos, desde que Aegon, o Dragão, chegara para
fazer dos Sete Reinos um só... mas agora eram ouvidas
de novo, ressoando no madeirame do salão de seu pai:

- O Rei do Norte!
- O Rei do Norte!
- O Rei do Norte!

Daenerys

A terra era vermelha, morta e ressequida, e era difícil
encontrar boa madeira. Os forrageiros regressaram com
algodoeiros nodosos, arbustos roxos, feixes de grama
seca. Abateram as duas árvores menos retorcidas,
desbastaram os galhos, arrancaram a casca e dividiram-
nas, dispondo as toras em quadrado. Encheram o centro
com palha, arbustos, aparas de casca de árvore e fardos
de mato seco. Rakharo escolheu um garanhão da
pequena manada que lhes restava; não era tão nobre
como o vermelho de Khal Drogo, mas poucos cavalos o
eram. No centro do quadrado, Aggo deu-lhe uma maçã
mirrada e o abateu num instante com um golpe de
machado dado entre os olhos.
Atada de pés e mãos, Mirri Maz Duur observava da
poeira com inquietação em seus olhos negros.
- Não basta matar um cavalo - disse a Dany, - Em si
mesmo, o sangue não é nada. Não sabe as palavras para
fazer um feitiço, nem tem a sabedoria para encontrá-las.
julga que a magia de sangue é um jogo de crianças?
Chamam-me maegi como se fosse uma praga, mas tudo o
que isso significa é sábio. E uma criança, com a
ignorância de uma criança. Seja o que for que pretenda
fazer, não dará resultado. Solte-me destes nós, e eu a
ajudo.
- Estou farta dos zurros da maegi - disse Dany a Jhogo.
Ele brindou-a com o chicote, e depois daquilo a esposa de
deus manteve-se em silêncio.
Por cima da carcaça do cavalo, construíram uma
plataforma de toras decepadas; troncos de árvores
menores e braços das maiores, e os mais grossos e direitos
galhos que conseguiram encontrar. Dispuseram a
madeira de leste para oeste, do nascente ao poente. Sobre
a plataforma, empilharam os tesouros de Khal Drogo:
sua grande tenda, os coletes pintados, as selas e arreios,
o chicote que o pai lhe dera quando se fizera um homem,
o arakh que usara para matar Khal Ogo e o filho, um
grande arco de osso de dragão. Aggo queria juntar
também as armas que os companheiros de sangue de
Drogo tinham dado a Dany como presentes de noivado,
mas ela o proibiu.
- Essas são minhas - disse-lhe - e quero ficar com elas -
outra camada de arbustos foi depositada em volta dos
tesouros do khal, e feixes de mato seco foram espalhados
sobre eles.
Sor Jorah Mormont puxou-a de lado quando o sol se
aproximava do zénite.
- Princesa... - começou.
- Por que me chama assim? - desafiou Dany. - Meu irmão
Viserys era seu rei, não é verdade?
- Era, senhora.
- Viserys está morto. Eu sou sua herdeira, o último
sangue da Casa Targaryen. O que quer que fosse dele é
agora meu.
- Minha... rainha - disse Sor Jorah, caindo sobre um
joelho. - Minha espada, que era dele, é sua, Daenerys. E
o meu coração também, que nunca pertenceu a vosso
irmão. Sou apenas um cavaleiro, e nada tenho a
oferecerdhe exceto o exílio, mas escute-me, suplico-lhe.
Esqueça Khal Drogo. Não estará só. Prometo-lhe que
nenhum homem a levará para Vaes Dothrak a menos que
deseje ir. Não tem de se juntar às dosh khaken. Venha
para o leste comigo, Yi Ti, Qarth, o Mar de Jade, Asshai
da Sombra. Veremos todas as maravilhas que ainda há
para ver, e beberemos os vinhos que os deuses achem por
bem nos oferecer. Por favor, khakesi. Sei o que pretende
fazer. Não o faça. Não o faça.
- Tenho de fazê-lo - disse-lhe Dany. Tocou-lhe o rosto,
com carinho, com tristeza. - O senhor não compreende.
- Compreendo que o amava - disse Sor Jorah com uma
voz carregada de desespero. - Há tempos amei a senhora
minha esposa, mas não morri com ela. É a minha rainha,
a minha espada é sua, mas não me peça para me afastar
enquanto sobe para a pira de Drogo, Não a verei arder.
- É isso o que teme? - Dany deu-lhe um leve beijo na
testa larga. - Não sou assim tão infantil, querido sor.
- Não planeja morrer com ele? Jura, minha rainha?
-Juro - disse ela no Idioma Comum dos Sete Reinos que
por direito eram seus.
O terceiro nível da plataforma foi tecido com ramos que
não eram mais grossos que um dedo, e coberto com
folhas e raminhos secos. Dispuseram-nos de norte a sul,
do gelo ao fogo, e em cima colocaram uma grande pilha
de suaves almofadas e sedas de dormir. O sol começava a
baixar em direção a oeste quando terminaram. Dany
chamou 